<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" >

<channel><title><![CDATA[SA&Uacute;DE + P&Uacute;BLICA - Em Foco]]></title><link><![CDATA[https://www.saudemaispublica.com/em-foco]]></link><description><![CDATA[Em Foco]]></description><pubDate>Sat, 28 Feb 2026 11:30:09 +0000</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[ESTRATÉGIAS INTEGRADAS PARA MELHORAR A SAÚDE MENTAL E O BEM-ESTAR]]></title><link><![CDATA[https://www.saudemaispublica.com/em-foco/estrategias-integradas-para-melhorar-a-saude-mental-e-o-bem-estar]]></link><comments><![CDATA[https://www.saudemaispublica.com/em-foco/estrategias-integradas-para-melhorar-a-saude-mental-e-o-bem-estar#comments]]></comments><pubDate>Wed, 07 Feb 2024 08:37:38 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.saudemaispublica.com/em-foco/estrategias-integradas-para-melhorar-a-saude-mental-e-o-bem-estar</guid><description><![CDATA[A Sa&uacute;de P&uacute;blica, como especialidade multidisciplinar, tem compet&ecirc;ncias na &aacute;rea da Sa&uacute;de Mental em v&aacute;rias vertentes: advocacia em quest&otilde;es de preven&ccedil;&atilde;o primordial e comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, planeamento de base populacional e/ou institucional, investiga&ccedil;&atilde;o, gest&atilde;o de programas direcionados a v&aacute;rios n&iacute;veis de preven&ccedil;&atilde;o e, enquanto autoridade de sa&uacute;de, na din&acirc;m [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="paragraph">A Sa&uacute;de P&uacute;blica, como especialidade multidisciplinar, tem compet&ecirc;ncias na &aacute;rea da Sa&uacute;de Mental em v&aacute;rias vertentes: advocacia em quest&otilde;es de preven&ccedil;&atilde;o primordial e comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, planeamento de base populacional e/ou institucional, investiga&ccedil;&atilde;o, gest&atilde;o de programas direcionados a v&aacute;rios n&iacute;veis de preven&ccedil;&atilde;o e, enquanto autoridade de sa&uacute;de, na din&acirc;mica associada &agrave; Lei de Sa&uacute;de Mental.<br /><br />As abordagens populacionais da sa&uacute;de mental s&atilde;o diversas e podem ser definidas como atividades/interven&ccedil;&otilde;es n&atilde;o cl&iacute;nicas direcionadas &agrave; melhoria de resultados em sa&uacute;de mental e dos seus determinantes de sa&uacute;de. Designam-se de populacionais porque t&ecirc;m como grupos-alvos indiv&iacute;duos com caracter&iacute;sticas demogr&aacute;ficas, socioecon&oacute;micas, de utiliza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de sa&uacute;de, ou outras, em comum.<br /><br />Para al&eacute;m das abordagens mais tradicionais que se focam em determinantes de sa&uacute;de diretamente ligados &agrave; sa&uacute;de mental, h&aacute; evid&ecirc;ncia (1) que sugere que interven&ccedil;&otilde;es destinadas &agrave; redu&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de eventos de vida traum&aacute;ticos e da exposi&ccedil;&atilde;o a est&iacute;mulos nocivos psicossociais podem ter um impacto significativo na sa&uacute;de mental coletiva das popula&ccedil;&otilde;es. Deve ser salientado o importante papel dos estudos quasi-experimentais em interven&ccedil;&otilde;es em sa&uacute;de mental, algo ainda incipiente no nosso pa&iacute;s e que poder&aacute; complementar de forma importante o conhecimento cient&iacute;fico atual. Apesar de existir fundamento claro para interven&ccedil;&otilde;es regionais/sub-regionais em sa&uacute;de mental, as dificuldades na medi&ccedil;&atilde;o do seu impacto, na replica&ccedil;&atilde;o das mesmas e no seu financiamento cont&iacute;nuo, configuram barreiras importantes &agrave; sua implementa&ccedil;&atilde;o.<br /><br />O foco local em Entre Douro e Vouga I nas quest&otilde;es de sa&uacute;de mental surge de duas necessidades. A primeira &eacute; que se compreendeu que a especializa&ccedil;&atilde;o por parte de um m&eacute;dico numa Unidade de Sa&uacute;de P&uacute;blica permite um maior conhecimento, maior dom&iacute;nio e maior efici&ecirc;ncia de resposta. A segunda &eacute; que, felizmente, criou-se uma din&acirc;mica local &agrave; volta de uma equipa comunit&aacute;ria multidisciplinar de resposta a casos complexos que n&atilde;o reuniam crit&eacute;rios para internamento involunt&aacute;rio. O somat&oacute;rio das duas com o meu interesse individual em ser facilitador na &aacute;rea fez com que ficasse respons&aacute;vel por colmatar estas necessidades.<br /><br />Contudo, &eacute; dif&iacute;cil medir impactos populacionais na sa&uacute;de mental. Ali&aacute;s, &eacute; uma &aacute;rea de grande complexidade no que respeita a defini&ccedil;&atilde;o de m&eacute;tricas de avalia&ccedil;&atilde;o e homogeneiza&ccedil;&atilde;o das mesmas, de forma a possibilitar a compara&ccedil;&atilde;o de dados a n&iacute;vel internacional (2). O que conseguimos a n&iacute;vel local foi otimizar uma resposta estrutural face a casos de doen&ccedil;a mental complexa, enquadrando-se sobretudo na preven&ccedil;&atilde;o terci&aacute;ria, com algum componente de preven&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria por via de sinaliza&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&otilde;es por parte de profissionais de sa&uacute;de e for&ccedil;as de seguran&ccedil;a.<br /><br />Isto ser&aacute; apenas o in&iacute;cio. O que decorre de forma favor&aacute;vel neste momento a n&iacute;vel local &eacute; uma maior articula&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel da preven&ccedil;&atilde;o terci&aacute;ria atrav&eacute;s de uma equipa multidisciplinar que envolve Sa&uacute;de P&uacute;blica, Psicologia, Psiquiatria, Equipa de Tratamento (ICAD), Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (URAP), ECASM (Equipa Comunit&aacute;ria de Acompanhamento em Sa&uacute;de Mental), Tribunal, Minist&eacute;rio P&uacute;blico e Dire&ccedil;&atilde;o Geral de Reabilita&ccedil;&atilde;o e Servi&ccedil;os Prisionais (DGRSP). Destaco tamb&eacute;m o trabalho feito pelos m&uacute;ltiplos profissionais da Unidade de Sa&uacute;de P&uacute;blica envolvidos na Sa&uacute;de Escolar e especificamente o trabalho feito pelas Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC), n&atilde;o s&oacute; na Sa&uacute;de Escolar como nos Cursos de Prepara&ccedil;&atilde;o para o Parto e Parentalidade, identificados como uma das melhores pr&aacute;ticas num ponto crucial do ciclo de vida e integradas na l&oacute;gica de preven&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria. N&atilde;o posso deixar de citar tamb&eacute;m o trabalho multidisciplinar nos grupos psicoterap&ecirc;uticos para a depress&atilde;o e ansiedade da URAP, envolvendo n&atilde;o s&oacute; a Psicologia, mas tamb&eacute;m a terapia ocupacional, fisioterapia e nutri&ccedil;&atilde;o, pelo impacto global destas perturba&ccedil;&otilde;es na sa&uacute;de dos utentes.<br /><br />As recentes reformas da Sa&uacute;de Mental em Portugal privilegiam a transi&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria de cuidados, algo que faz sentido e era at&eacute; agora insuficiente. Mas faltam abordagens multin&iacute;vel direcionadas &agrave; redu&ccedil;&atilde;o do estigma, &agrave; sensibiliza&ccedil;&atilde;o e campanhas espec&iacute;ficas que abordem problemas como a doen&ccedil;a mental no sexo masculino, a qual continua a ser subdiagnosticada e identificada tardiamente, revelando-se frequentemente em associa&ccedil;&atilde;o com outro tipo de manifesta&ccedil;&otilde;es, tais como viol&ecirc;ncia e/ou depend&ecirc;ncias. Adicionalmente, a crise dos recursos humanos no Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de n&atilde;o &eacute; exce&ccedil;&atilde;o na Sa&uacute;de Mental e existem estruturas &agrave; espera desses recursos. Existem boas pr&aacute;ticas reconhecidas e falta concretiz&aacute;-las ou melhor&aacute;-las. O elevado retorno do investimento nestas &aacute;reas &eacute; sobejamente reconhecido (3). O que falta fazer? Ainda demasiado. Usando a provoca&ccedil;&atilde;o de um artigo recente: a preven&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria em psiquiatria n&atilde;o &eacute; fic&ccedil;&atilde;o (4).<br /><br />Um dos problemas que continuaremos a ter &eacute; o tempo necess&aacute;rio para que os benef&iacute;cios da preven&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria se possam revelar e ter impacto, particularmente na Sa&uacute;de Mental. Na verdade, tendo em conta uma meta-an&aacute;lise recente, a idade de aparecimento de v&aacute;rias doen&ccedil;as mentais centra-se, em m&eacute;dia, &agrave; volta dos 14 anos (5), o que coloca o m&aacute;ximo &ecirc;nfase na import&acirc;ncia das interven&ccedil;&otilde;es no in&iacute;cio do ciclo de vida e ao longo dos primeiros anos de vida. Estas considera&ccedil;&otilde;es s&atilde;o fulcrais se queremos tornar eficaz a preven&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria em sa&uacute;de mental, algo j&aacute; sinalizado a n&iacute;vel do Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de, mas que merece novo olhar e refor&ccedil;o.<br /><br />Outra faceta &eacute; a atomiza&ccedil;&atilde;o social que vivemos &agrave; custa de determinantes como o envelhecimento da popula&ccedil;&atilde;o e o advento das redes sociais. Numa revis&atilde;o sistem&aacute;tica que envolveu no total noventa estudos e mais de dois milh&otilde;es de observa&ccedil;&otilde;es, tanto o isolamento social como a solid&atilde;o foram associados a um risco aumentado de mortalidade por todas as causas e mortalidade por cancro (6).<br /><br />O foco institucional e populacional no isolamento social e na solid&atilde;o pode ajudar a melhorar o bem-estar das pessoas e o risco de mortalidade. Ali&aacute;s, um relat&oacute;rio do Surgeon General americano intitulado &ldquo;Our epidemic of loneliness and isolation&rdquo; de 2023 destaca claramente a intersec&ccedil;&atilde;o dos efeitos perniciosos de envelhecimento, viv&ecirc;ncia digital e atomiza&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria (7). A liga&ccedil;&atilde;o social surge como eixo agregador de v&aacute;rias estrat&eacute;gias para responder a esse problema (Fig.1).<br></div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.saudemaispublica.com/uploads/9/8/9/4/98944468/published/foco-7-2-2024.png?1707295437" alt="Fotografia" style="width:850;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph"><font size="4">Fig. 1. Os seis pilares para melhorar a conex&atilde;o social. Retirado de Office of the Surgeon General. (2023). Our Epidemic of Loneliness and Isolation: The US Surgeon General&rsquo;s Advisory on the Healing Effects of Social Connection and Community [Internet].</font><br></div>  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div class="paragraph">Existem ainda barreiras ao acesso e necessidades culturais, lingu&iacute;sticas e sociais espec&iacute;ficas que oferecem obst&aacute;culos ao planeamento e resposta dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de mental. N&atilde;o h&aacute; uma resposta universal num pa&iacute;s com heterogeneidade marcada, mas sim princ&iacute;pios universais para orientar respostas distintas.<br /><br />No contexto da reforma das Unidades Locais de Sa&uacute;de, os Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de P&uacute;blica poder&atilde;o ajudar os Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de Mental.&nbsp; Na componente de planeamento, monitoriza&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o dos respetivos projetos/programas, a Sa&uacute;de P&uacute;blica tem um papel essencial na identifica&ccedil;&atilde;o de fen&oacute;menos heterog&eacute;neos na popula&ccedil;&atilde;o, na defini&ccedil;&atilde;o de alvos priorit&aacute;rios de interven&ccedil;&atilde;o e na avalia&ccedil;&atilde;o do impacto na popula&ccedil;&atilde;o, para apoiar a tomada de decis&atilde;o informada e o planeamento a longo prazo das Dire&ccedil;&otilde;es das ULS.<br /><br />Tamb&eacute;m ter&aacute; um papel relevante na articula&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, na ponte com os Planos Municipais de Sa&uacute;de das Autarquias no &acirc;mbito da descentraliza&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncias e na interven&ccedil;&atilde;o, com a vis&atilde;o transversal e com os m&uacute;ltiplos atores sociais relevantes para esta tem&aacute;tica t&atilde;o relevante.</div>  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div class="paragraph"><strong>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas:</strong><ol><li><font size="4">Purtle, J., Nelson, K. L., Counts, N. Z., &amp; Yudell, M. (2020). Population-based approaches to mental health: history, strategies, and evidence. Annual Review of Public Health, 41, 201-221.<br></font></li><li><font size="4">Farber, G. K., Gage, S., Kemmer, D., &amp; White, R. (2023). Common measures in mental health: a joint initiative by funders and journals. The Lancet Psychiatry, 10(6), 465-470.</font></li><li><font size="4">Knapp, M., McDaid, D., &amp; Parsonage, M. (2011). Mental health promotion and mental illness prevention: The economic case.</font></li><li><font size="4">Arango, C., &amp; Fusar-Poli, P. (2022). Primary prevention in psychiatry is not science fiction. European neuropsychopharmacology: the journal of the European College of Neuropsychopharmacology, 65, 30-32.</font><br></li><li><font size="4">Solmi, M., Radua, J., Olivola, M., Croce, E., Soardo, L., Salazar de Pablo, G., ... &amp; Fusar-Poli, P. (2022). Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular psychiatry, 27(1), 281-295.</font></li><li><font size="4">Wang, F., Gao, Y., Han, Z. et al. A systematic review and meta-analysis of 90 cohort studies of social isolation, loneliness and mortality. Nat Hum Behav 7, 1307&ndash;1319 (2023). https://doi.org/10.1038/s41562-023-01617-6.</font></li><li><font size="4">Office of the Surgeon General. (2023). Our Epidemic of Loneliness and Isolation: The US Surgeon General&rsquo;s Advisory on the Healing Effects of Social Connection and Community [Internet].</font><br></li></ol></div>  <div><div style="height: 20px; overflow: hidden; width: 100%;"></div> <hr class="styled-hr" style="width:100%;"></hr> <div style="height: 20px; overflow: hidden; width: 100%;"></div></div>  <div><div class="wsite-multicol"><div class="wsite-multicol-table-wrap" style="margin:0 -15px;"> 	<table class="wsite-multicol-table"> 		<tbody class="wsite-multicol-tbody"> 			<tr class="wsite-multicol-tr"> 				<td class="wsite-multicol-col" style="width:60.18711018711%; padding:0 15px;"> 					 						  <div class="paragraph"><strong>Autor:</strong><br />Bernardo Gomes<br /><font size="4">M&eacute;dico Assistente da Carreira de Sa&uacute;de P&uacute;blica no Agrupamento de Centros de Sa&uacute;de Entre Douro e Vouga I como M&eacute;dico Assistente da Carreira de Sa&uacute;de P&uacute;blica e a n&iacute;vel nacional com a Dire&ccedil;&atilde;o Geral de Sa&uacute;de.<br />Respons&aacute;vel nacional pela &aacute;rea da Tuberculose Prisional no Programa Nacional de Luta contra a Tuberculose.<br />Docente convidado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.<br />Editor Associado da Acta M&eacute;dica.<br />Formador habitual pela Administra&ccedil;&atilde;o Regional de Sa&uacute;de do Norte.</font><br /><br /><strong>Edi&ccedil;&atilde;o:</strong><br />Joana Carvalho e Soraia Costa<br></div>   					 				</td>				<td class="wsite-multicol-col" style="width:39.81288981289%; padding:0 15px;"> 					 						  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.saudemaispublica.com/uploads/9/8/9/4/98944468/published/bernardo-gomes-07-02-24.jpg?1707295711" alt="Fotografia" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>   					 				</td>			</tr> 		</tbody> 	</table> </div></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um breve e preocupante olhar sobre género e reclusão]]></title><link><![CDATA[https://www.saudemaispublica.com/em-foco/um-breve-e-preocupante-olhar-sobre-genero-e-reclusao]]></link><comments><![CDATA[https://www.saudemaispublica.com/em-foco/um-breve-e-preocupante-olhar-sobre-genero-e-reclusao#comments]]></comments><pubDate>Tue, 31 Oct 2023 20:45:44 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.saudemaispublica.com/em-foco/um-breve-e-preocupante-olhar-sobre-genero-e-reclusao</guid><description><![CDATA[Muitas delas s&atilde;o m&atilde;es e est&atilde;o longe dos seus filhos. Se tinham um companheiro, foram provavelmente abandonadas &agrave; pr&oacute;pria sorte, &mdash; mesmo que uma grande parcela esteja ali por influ&ecirc;ncia deles. Grande parte delas ainda est&aacute; longe da sua terra natal e carrega o estigma quadruplicado de ser mulher, negra, pobre e &ldquo;criminosa&rdquo;.Historicamente, as mulheres est&atilde;o menos envolvidas em crimes do que os homens. Este facto esteve por mui [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="paragraph">Muitas delas s&atilde;o m&atilde;es e est&atilde;o longe dos seus filhos. Se tinham um companheiro, foram provavelmente abandonadas &agrave; pr&oacute;pria sorte, &mdash; mesmo que uma grande parcela esteja ali por influ&ecirc;ncia deles. Grande parte delas ainda est&aacute; longe da sua terra natal e carrega o estigma quadruplicado de ser mulher, negra, pobre e &ldquo;criminosa&rdquo;.<br /><br />Historicamente, as mulheres est&atilde;o menos envolvidas em crimes do que os homens. Este facto esteve por muito tempo associado &agrave;s regras sociais e &agrave; assimila&ccedil;&atilde;o de uma ideologia patriarcal. No entanto, a liberta&ccedil;&atilde;o feminina alcan&ccedil;ada nos &uacute;ltimos anos, na medida em que trouxe in&uacute;meros avan&ccedil;os em todos os aspetos da mulher como ser humano e cidad&atilde;, tamb&eacute;m a deixou mais vulner&aacute;vel a diversos fatores que elevam o risco de ser privada de liberdade. Consequentemente, o n&uacute;mero de mulheres no sistema prisional disparou e cresce mais r&aacute;pido do que a popula&ccedil;&atilde;o masculina em todos os continentes.<br /><br />A maioria dos delitos cometidos por mulheres envolve tr&aacute;fico de drogas e est&aacute; ligado ao facto de elas ficarem em posi&ccedil;&otilde;es subalternas ou perif&eacute;ricas na estrutura do crime, sendo mais expostas &agrave; a&ccedil;&atilde;o policial, como no caso das &ldquo;mulas&rdquo;. Al&eacute;m disso, geralmente as mulheres sofrem influ&ecirc;ncias masculinas, diretas ou indiretas. Muitas s&atilde;o induzidas a cometer ou participar do crime ou a assumir a culpa sozinhas para livrar o homem da reclus&atilde;o, servindo como escudo contra a a&ccedil;&atilde;o policial. Quando se relacionam as discuss&otilde;es de identidade e g&eacute;nero com a criminalidade feminina e a vida na pris&atilde;o, ressalta-se que ao mencionar as mulheres denominadas como infratoras, violentas, criminosas ou outra denomina&ccedil;&atilde;o que lhes seja dada, o que vem &agrave; mente &eacute; o rompimento que essas mulheres tiveram com o normativo de g&eacute;nero atribu&iacute;do &agrave; sua identidade como mulher. Ela &eacute; vista pela sociedade como transgressora em dois n&iacute;veis, da ordem da sociedade e da ordem da fam&iacute;lia, pois abandona o seu papel de m&atilde;e e esposa, papel este que lhe foi destinado pela sociedade. Passa, ent&atilde;o, a suportar uma dupla repress&atilde;o: a priva&ccedil;&atilde;o de liberdade comum a todos os prisioneiros e uma vigil&acirc;ncia r&iacute;gida para proteg&ecirc;-las contra elas mesmas.<br /><br />As quest&otilde;es de g&eacute;nero no tratamento da criminalidade da mulher manifestam-se em diferentes esferas. Come&ccedil;am no sistema penal, que reflete uma tradi&ccedil;&atilde;o patriarcal e androc&ecirc;ntrica predominante na sociedade. E mais, o sistema mant&eacute;m os aspetos discriminat&oacute;rios (ilegais) que tolhem a emancipa&ccedil;&atilde;o feminina, contribuindo para a consolida&ccedil;&atilde;o de uma cultura que se apropria do corpo e identidade da mulher como se fossem espa&ccedil;os p&uacute;blicos de discuss&atilde;o.<br /><br />A viol&ecirc;ncia estrutural vivida em comunidades marginalizadas, o papel da classe e etnia como agentes precursores da pris&atilde;o destas mulheres, a desumaniza&ccedil;&atilde;o e abuso que acontece nas pris&otilde;es, a perda de direitos e o estigma, todos s&atilde;o fatores de suas vidas que surgem amplificados quando s&atilde;o presas. A restri&ccedil;&atilde;o da visita &iacute;ntima nas penitenci&aacute;rias femininas &eacute; outro aspeto que aprofunda a viol&ecirc;ncia de g&eacute;nero institucionalizada. Apesar das visitas &iacute;ntimas serem um direito assegurado aos sujeitos privados de liberdade e uma pr&aacute;tica regular no sistema prisional masculino, n&atilde;o s&atilde;o parte da rotina da maioria dos estabelecimentos prisionais femininos.<br /><br />Al&eacute;m disso, a pris&atilde;o feminina impacta diretamente a sa&uacute;de, tanto da mulher privada de liberdade quanto a dos seus familiares. Estudos mostram que filhos de m&atilde;es privadas de liberdade possuem piores n&iacute;veis de sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o, e muitos destes efeitos ir&atilde;o persistir durante toda a adolesc&ecirc;ncia e vida adulta dessas crian&ccedil;as.<br /><br />Em muitos pa&iacute;ses, a preval&ecirc;ncia de diferentes morbidades em pris&otilde;es femininas &eacute; maior tanto quando comparada &agrave;s pris&otilde;es masculinas quanto em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s mulheres da popula&ccedil;&atilde;o geral. Existe uma grande falha na provis&atilde;o de cuidados de sa&uacute;de em estabelecimentos prisionais condizentes com as necessidades biol&oacute;gicas e sociais das mulheres, como quest&otilde;es relacionadas &agrave; sa&uacute;de sexual e reprodutiva e abuso sexual (entre outras formas de viol&ecirc;ncia de g&eacute;nero). Estas discrep&acirc;ncias revelam claramente que os sistemas prisionais foram concebidos "por homens e para homens", desconsiderando a presen&ccedil;a de mulheres, acarretando, consequentemente, uma desigualdade de g&eacute;nero e um forte processo de vulnerabilidade.<br /><br />Dessa forma, os estabelecimentos prisionais atuam na dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria do que se espera deles: a ressocializa&ccedil;&atilde;o. O contato destas mulheres com o sistema prisional deveria funcionar como uma oportunidade de aquisi&ccedil;&atilde;o de cuidados de sa&uacute;de por uma popula&ccedil;&atilde;o vulner&aacute;vel que pode n&atilde;o ter as mesmas oportunidades fora dele.<br /><br />Elevar o estatuto de sa&uacute;de de mulheres privadas de liberdade ao mais alto n&iacute;vel de sa&uacute;de poss&iacute;vel &eacute;, para al&eacute;m de um direito constitucional, uma quest&atilde;o de respeito pelos direitos humanos.<br /><br /><br /><strong>Bibliografia:</strong><ol><li>BARCINSKI, M. Mulheres no tr&aacute;fico de drogas: a criminalidade como estrat&eacute;gia de sa&iacute;da da invisibilidade social feminina. Contextos Cl&iacute;nicos, v. 5, n. 1, p. 52-61,&nbsp; 2012.<br></li><li>Binswanger, I. A., Merrill, J. O., Krueger, P. M., White, M. C., Booth, R. E., &amp; Elmore, J. G. (2010). Gender differences in chronic medical, psychiatric, and substance-dependence disorders among jail inmates. American journal of public health, 100(3), 476-482.</li><li>BORGES, P. C. C.; SILVA, L. P.; RAMPIN, T. T. D.; COLOMBAROLI, A. C. D. M.; POLLI, R. D. Sistema penal e g&ecirc;nero: t&oacute;picos para a emancipa&ccedil;&atilde;o feminina.&nbsp;&nbsp; Cultura Acad&ecirc;mica, 2011.&nbsp; ISBN 8579832209.</li><li>BRAITHWAITE, R. L.; TREADWELL, H. M.; ARRIOLA, K. R. Health disparities and</li><li>incarcerated women: A population ignored. American Journal of Public Health, v. 98, n. Supplement_1, p. S173-S175, 2008.</li><li>COLARES, L. B. C.; CHIES, L. A. B. Mulheres nas so(m)bras: invisibilidade, reciclagem e domina&ccedil;&atilde;o viril em pres&iacute;dios masculinamente mistos. Estudos Feministas, p. 407-423,&nbsp; 2010. ISSN 0104-026X.</li><li>de Ara&uacute;jo, P.F., Kerr, L.R.F.S., Kendall, C. et al. Behind bars: the burden of being a woman in Brazilian prisons. BMC Int Health Hum Rights 20, 31 (2020).</li><li>Diniz, Debora. Cadeia: relato sobre mulheres. Editora Jos&eacute; Olympio, 2015.</li><li>Leal, M., Kerr, L., Mota, R. M. S., Pires Neto, R. D. J., Seal, D., &amp; Kendall, C. (2022). Health of female prisoners in Brazil. Ci&ecirc;ncia &amp; Sa&uacute;de Coletiva, 27, 4521-4529.</li><li>Leal, M. (2018). Disparidades em sa&uacute;de entre mulheres privadas de liberdade e da popula&ccedil;&atilde;o geral no Brasil. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Cear&aacute;.</li><li>LEMGRUBER, J. Cemit&eacute;rio dos vivos: an&aacute;lise sociol&oacute;gica de uma pris&atilde;o de mulheres.&nbsp;&nbsp; Achiam&eacute;, 1983.</li><li>MAKKI, S. H.; SANTOS, M. L. D. G&ecirc;nero e criminalidade: Um olhar sobre a mulher encarcerada no Brasil.&nbsp; mbito jur&iacute;dico, v. 13, n. 78,&nbsp; 2010.</li><li>PRIORI, C. A constru&ccedil;&atilde;o social da identidade de g&ecirc;nero e as mulheres na pris&atilde;o. Revista NUPEM, v. 3, n. 4, p. 9,&nbsp; 2011.&nbsp; &nbsp;</li><li>Queiroz, Nana. Presos que menstruam: a brutal vida das mulheres-tratadas como homens-nas pris&otilde;es brasileiras. Editora Record, 2015.</li><li>RAMPIM, T. T. D. Mulher e sistema penitenci&aacute;rio: a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero. In: BORGES, P. C. C. (Ed.). Sistema penal e g&ecirc;nero: t&oacute;picos para a emancipa&ccedil;&atilde;o feminina. S&atilde;o Paulo: Cultura Acad&ecirc;mica, 2011. cap. 2, p.35. Supplement_1, p. S173-S175, 2008.</li><li>WALMSLEY, R. World Female Imprisonment List. World Prison Brief. London. 2017.</li><li>WILDEMAN, C.; WANG, E. A. Mass incarceration, public health, and widening inequality in the USA. The Lancet, v. 389, n. 10077, p. 1464-1474,&nbsp; 2017. ISSN 0140-6736.<br></li></ol></div>  <div><div style="height: 20px; overflow: hidden; width: 100%;"></div> <hr class="styled-hr" style="width:100%;"></hr> <div style="height: 20px; overflow: hidden; width: 100%;"></div></div>  <div><div class="wsite-multicol"><div class="wsite-multicol-table-wrap" style="margin:0 -15px;"> 	<table class="wsite-multicol-table"> 		<tbody class="wsite-multicol-tbody"> 			<tr class="wsite-multicol-tr"> 				<td class="wsite-multicol-col" style="width:60.18711018711%; padding:0 15px;"> 					 						  <div class="paragraph"><strong>Autor:</strong><br />Marto Leal,<br />Epidemiologista. P&oacute;s-doutorado no Instituto de Sa&uacute;de P&uacute;blica da Universidade do Porto. Doutor em Sa&uacute;de P&uacute;blica. Membro do Grupo Cearense de Pesquisa em Doen&ccedil;as Infecciosas do Departamento de Sa&uacute;de Comunit&aacute;ria da Universidade Federal do Cear&aacute;/Brasil. Dedica-se, principalmente, a estudos sobre a preval&ecirc;ncia de doen&ccedil;as e determinantes em popula&ccedil;&otilde;es-chave, desigualdades em sa&uacute;de, sexualidade, HIV/AIDS, Zika v&iacute;rus e COVID-19.<br /><br /><strong>Edi&ccedil;&atilde;o:</strong><br />Joana Carvalho e Soraia Costa<br /><br /></div>   					 				</td>				<td class="wsite-multicol-col" style="width:39.81288981289%; padding:0 15px;"> 					 						  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.saudemaispublica.com/uploads/9/8/9/4/98944468/screenshot-20231031-204716_orig.png" alt="Fotografia" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>   					 				</td>			</tr> 		</tbody> 	</table> </div></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>